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A colecionadora de ossos

A colecionadora de ossos: “Eu estava colecionando inseguranças”

Ao reencontrar um autorretrato intitulado A Colecionadora de Ossos, Rafaella Machado faz uma viagem o passado para entender inseguranças com o corpo. Leia mais na sua coluna!

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A colecionadora de ossos: “Eu estava colecionando inseguranças”

Ao reencontrar um autorretrato intitulado A Colecionadora de Ossos, Rafaella Machado faz uma viagem o passado para entender inseguranças com o corpo. Leia mais na sua coluna!
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A colecionadora de ossos

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Eu cresci no começo dos anos 2000, quando o bonito era ser um esqueleto fashion igual à Paris Hilton e absolutamente ninguém se declarava feminista. Era uma época simples, curvas eram inaceitáveis tanto no corpo quanto no cabelo, que precisava ser mais que liso, praticamente lambido e escorrendo na cara.

A internet era discada, não existiam filtros de Instagram e o fotolog era o principal veículo para você se comparar com outras meninas e se sentir um lixo sobre você mesma. Ou, pelo menos, era assim que eu passava meu tempo ocioso, que, aliás, era outro fenômeno que desapareceu nos últimos anos. 

Créditos: Acervo Pessoal

É curioso pensar nesse contexto todo quando vejo uma foto minha aos 16. Eu guardo as lembranças dessa época em uma gaveta que nunca abro. Uma cápsula do tempo com fotos analógicas, diários antigos, recortes de revista e outras coisas igualmente cringe que ficaram esquecidas. Não gosto de revirar essa gaveta. Me parece errado, como mexer nas coisas de outra mulher. Quem sabe de alguém que já tenha morrido.  

Talvez eu estivesse guardando as memórias dessa jovem para entregar a ela, se um dia nós nos reencontrarmos. E é exatamente isso que desejo fazer agora, apesar de não saber nem por onde começar. 

Como é que a gente retoma contato com alguém que ficou no passado? Eu não sei, porque evito fazer esse tipo de coisa por medo de descobrir que mais uma antiga amiga se tornou bolsonarista. Tem vezes que a pessoa do meu passado nem se parece mais com sua versão original, seja por conta de harmonizações faciais ou simplesmente porque ela parou de ser gótica e ficou irreconhecível. Ou as duas coisas ao mesmo tempo, tornando tudo mais dramático ainda. 

Acontece que dessa vez estou decidida a encontrá-la.  

Em uma das páginas do diário, um desenho, um autorretrato que intitulei A colecionadora de ossos. Achei poético, já que a moça em questão pesava menos do que 50 quilos. A primeira coisa que você precisa saber sobre a minha versão do passado é que não éramos amigas. A gente não se olhava nos olhos. Eu falava coisas absurdas a seu respeito e acho que ela levava tudo muito a sério. Não sei nem como começar a me desculpar. 

Créditos: Acervo Pessoal

Resolvi fazer o que a gente fazia nos velhos tempos, ouvir músicas emo e pensar na vida. As músicas são engraçadas porque te transportam para outra era. Fui sentindo aquela inadequação tão característica de antes. De repente, eu me dei conta de que ela não era aquele caso perdido sem ambição alguma. Talvez eu tenha mais em comum com ela, aquela menina magrela que eu não deixava jantar, do que eu imaginei inicialmente. 

Na agenda da Hello Kitty, uma lista de ambições: 

  1. Perder peso 
  1. Ganhar concurso de redação 
  1. Viver um grande amor 
  1. Ser popular 
  1. Passar no vestibular  
  1. Trabalhar com livros 

Me dou conta que o problema não era falta de ambição, na verdade, ela era tão ambiciosa quanto eu sou hoje. Queria um corpo perfeito para uma vida perfeita e faria qualquer coisa para conseguir. E fez. Mas o problema todo era que o primeiro item da lista não teve fim. Perder todo esse peso e manter meu corpo daquele tamanho exigiu todas as horas dos dias dos meses dos anos da nossa vida. A minha e a dela. 

Eu não me inscrevi no concurso de redação. Não vivi um grande amor (não naquela década) porque estava ocupada demais vivendo um ódio. Não dava para ser popular porque isso significava estar e comer com pessoas ao meu lado. E isso era simplesmente impensável para mim. Para nós. 

Talvez fosse por isso que eu estivesse evitando abrir a gaveta. Minha mãe dizia que quem procura uma coisa encontra outra. Eu abri a gaveta em busca de respostas e encontrei mais perguntas. Não queria nada daquilo. Não queria rever a colecionadora de ossos e constatar que, enquanto as pessoas colecionavam viagens, amigos, férias, amores, decepções, experiências, etc, eu estava colecionando inseguranças.   

Mas era tarde demais, a garota magra estava espalhada pelo chão agora, fotos, textos, poemas e fragmentos de quem ela foi um dia. Me acostumei a culpar essa garota por tudo, por ter perdido 10 anos em uma depressão profunda, por ter demorado 6 anos para me formar na faculdade, por ter fechado tantas portas na minha cara. Fica difícil ser cruel com alguém te olhando assim nos olhos, como ela me olhou hoje. 

A primeira coisa que eu disse quando ela apareceu foi que aquele CD do Placebo envelheceu muito bem. Ela esboçou um sorriso e disse: “Você também”. Eu sorri de volta. Nosso olhar se cruzou pelo espelho. Eu fui injusta com você, resolvi falar, direto ao ponto. Não foi totalmente sua culpa, essa merda toda. Você não inventou as regras do jogo. Talvez se os anos 2000 tivesse um pouco mais de feminismo e um pouco menos de Paris Hilton (coitada, não a pessoa Paris, o padrão), nada disso teria acontecido. 

Ela não prestou atenção nas minhas palavras. Comecei a me sentir inadequada de novo. “Aposto que você nunca pensou que a gente vestiria uma calça GG”, falei, meio sem jeito. O rosto dela ficou perdido em pensamentos. Contei que a gente conquistou quase todos os itens da lista da Hello Kitty. Falei de como nos formamos na pós de gestão de negócios com um 10 em Economia empresarial e vi seu rosto se acender de surpresa.  

Mostrei fotos do nosso casamento. Falei dos livros que editei esse ano e dos planos pro ano que vem. A gente sempre foi ambiciosa, mas a sociedade nos fez colocar a ambição no lugar errado. Aquilo chegou perigosamente perto de nos matar e é a primeira vez que falamos abertamente sobre isso, sobre tudo, sem vergonha e sem culpa. 

“Tem uma coisa nessa lista que ainda não concretizamos”, ela disse, enigmática. Fechei a cara, lá vai ela falar de emagrecer, pensei. Tem gente que nunca muda. Affe. 

“Eu tava falando do concurso de redação”.  

“Ah, mas acho que não dá mais tempo né?”. Não quis ser dura, mas a garota tá 20 anos atrasada pro rolê. 

Ela me respondeu de boca cheia, comendo um bolo de aproximadamente 80 mil calorias, e disse: 

“Sempre dá tempo. Escreve sobre a nossa história. Aposto que você vai ganhar”.

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Rafaella Machado

Rafaella Machado

Sou apaixonada por livros e tudo que envolve o universo literário, da capa a história ao projeto gráfico. Sou Editora-Executiva da Galera Record, onde publicamos grandes obras desde fantasia épica a romances contemporâneos com foco em diversidade.

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